Artigo

O tsunami da extrema-direita na Suécia

Numa Europa recentemente marcada pela ascensão dos países de extrema-direita, xenófobos e eurocéticos, a Suécia parecia ser o último país a ceder a este tsunami do populismo.

O posicionamento sueco face ao bem-estar social, assente num eficaz serviço público de saúde e educação (na passagem do século XIX para o XX a maioria da população sueca era alfabetizada), e ao controlo da dívida pública, permitiu mitigar os efeitos da recente crise financeira de 2008. Com efeito, a crise também financeira vivida pela Suécia no início dos anos 1990 obrigou à intervenção do Estado no sistema bancário, impulsionou a dinamização da economia, reformas fiscais e a implementação de severos mecanismos de controlo financeiro. Assim, com todo este sistema de bem-estar, era lícito concluir que seria difícil a ascensão e consolidação no Parlamento de um partido de extrema-direita. Contudo, a crise dos migrantes, vivida desde 2014, alterou este cenário. Atualmente, a Suécia é o país com o maior rácio de migrantes per capita.

A agenda política das eleições suecas de 2018 foi marcada pelas questões associadas à imigração, principalmente pelo protagonismo atribuído aos imigrantes e refugiados no aumento da insegurança e da violência. Em 2015, a Suécia abriu as portas a 162 mil requerentes de asilo, mais, em proporção da população, do que qualquer outro Estado-membro da União Europeia. O acolhimento em massa dos migrantes foi questionado pela população sueca que começou a recear o funcionamento dos serviços públicos e do Estado social. O aumento da criminalidade e a dificuldade de integração dos migrantes, altamente documentado na imprensa, conduziu a um refrear da política de acolhimento.

Alterações inesperadas

Assim, no final de 2015, o social-democrata Stefan Löfven, poucos meses após ter proclamado que “a minha Europa não constrói muros, a minha Europa recebe refugiados”, implementou medidas restritivas da imigração e reforçou as forças policiais nas cidades e bairros onde se registaram maiores desacatos. Em 2016, a Suécia acolheu 28 mil migrantes, tendo este número decrescido para 26 mil em 2017. Esta crise migratória, à semelhança do que aconteceu em outros países europeus, permitiu, também ela, a ascensão do populismo na Suécia. E assim, no dia 9 de setembro de 2018, 7,5 milhões de eleitores suecos foram convocados para elegerem os 349 deputados que, durante 4 anos, assumirão a governação do país.

Resultados em foco

Com uma taxa de participação de cerca de 84%, os suecos continuaram a apostar nos partidos do establishment, centro-esquerda e centro-direita, confiando, a cada um dos blocos, aproximadamente, 40% da representatividade no Parlamento nacional. Contudo, os Democratas Suecos reforçaram a sua posição, subindo dos 12,9% registados nas eleições de 2014 para cerca de 18%, e conseguiram posicionar-se como o terceiro partido mais votado, atrás do Partido Social Democrata até agora no poder em coligação com o Partido Verde, com 28,4% de votos, e do Partido Moderado, com 19,8%, partido liberal-conservador, filiado no Partido Popular Europeu que governou a Suécia entre 2006 e 2014, integrando a aliança de centro-direita, formada pelo Partido Moderado, Partido Popular Liberal, Partido do Centro e Democratas Cristãos.

Mas quem são afinal os Democratas Suecos?

Fundado em 1988, este partido assume-se como nacionalista, conservador, anti-imigração e contra o projeto europeu, defendendo a intenção de apresentar ao Parlamento um pedido de referendo sobre a permanência da Suécia na União Europeia. Desde 2005 que é liderado por Jimmie Akesson e desde 2010 que marca presença no Parlamento, à semelhança de outros partidos políticos de extrema-direita, Frente Nacional (França), Liga (Itália), FPO (Áustria). Os Democratas Suecos têm vindo a moderar o seu discurso, o que lhes permitiu conquistar novos eleitorados. Assim, sob a liderança de Akesson, cortaram laços com o partido neonazi Reino Nórdico e com o movimento nacionalista “Manter a Suécia Sueca”, expulsaram os militantes abertamente racistas, apesar de alguns analistas defenderem que esta aparente tolerância não tem qualquer enraizamento interno, tendo alterado o foco do seu discurso. Se em tempos este partido defendeu que o crescimento da comunidade muçulmana constituía a maior ameaça desde a Segunda Guerra Mundial, atualmente orientou a sua campanha para o acesso da população aos benefícios sociais, a eficiência dos serviços e a segurança pública. Contudo, a polarização do voto, designadamente com a ascensão da extrema-direita na Suécia, anuncia mais instabilidade europeia e nacional, desde logo nas longas negociações que vai ser preciso haver para a escolha do líder do Governo. A Suécia é apenas uma pequena amostra do que se está hoje a passar ao nível da União Europeia, sobretudo no que concerne a paisagem política, seguramente bem diversa da que existe hoje, designadamente aquando das próximas eleições para o Parlamento Europeu.

Mais informação em http://www.revistafrontline.com/analise/isabel-meirelles-49/

19 de Outubro de 2018

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